20 de dez de 2012

Devemos converter-nos à paz


Caríssimos irmãos e irmãs:

"Ó raiz de Jessé, ó Sol de justiça, ó Rei das gentes (...)"

1. A Novena do Natal, que estamos a celebrar nestes dias, estimula-nos a viver de  maneira  intensa  e  profunda  a  preparação  para  a  grande  festa,  que  já está próxima, do nascimento do Salvador. A liturgia delineia um sábio itinerário para encontrar o Senhor que há-de vir, propondo dia após dia temas de reflexão e de oração. Convida-nos à conversão e ao dócil acolhimento do mistério do Natal.

No Antigo Testamento os profetas prenunciaram a vinda do Messias e mantiveram desperta a expectativa vigilante do povo eleito. Com os mesmos sentimentos, somos convidados a viver também nós este tempo, a fim de podermos saborear a alegria das festas de Natal já próximas.

A nossa expectativa torna-se voz das esperanças de toda a humanidade e exprime-se numa série de invocações sugestivas, que encontramos na celebração eucarística antes do Evangelho e na recitação das Vésperas antes do cântico do Magnificat. São as chamadas antífonas do "O", com as quais a Igreja se dirige Àquele que está prestes a chegar com títulos altamente poéticos, que manifestam  muito  bem  a  necessidade de  paz  e  de  salvação  dos  povos,  necessidade que encontra unicamente em Deus feito homem uma satisfação plena e definitiva.


2. Como o antigo Israel, a Comunidade eclesial faz-se voz dos homens e das mulheres de todos os tempos para cantar o advento do Salvador. Reza de cada vez:  "Ó Sabedoria que sai da boca do Altíssimo", "ó Guia da casa de Israel", "ó Raiz de Jessé", "ó Chave de David", ó Astro nascente", "ó Sol de justiça", "ó Rei das nações, Emanuel, Deus-conosco".

Em cada uma destas apaixonadas invocações, carregadas de referências bíblicas, sentimos o desejo ardente que os crentes sentem de ver realizadas as suas expectativas de paz. Por isso imploram o  dom  do  nascimento  do  Salvador prometido. Mas, ao mesmo tempo, sentem com clareza que isso requer um empenho concreto em predispor-Lhe uma morada digna, não só na sua alma, mas também no ambiente que os circunda. Numa palavra, invocar a vinda d'Aquele que traz a paz ao mundo requer que nos abramos docilmente à verdade libertadora e à força renovadora do Evangelho.

3. Neste itinerário de preparação para o encontro com Cristo, que no Natal vem ao encontro da humanidade, inseriu-se o dia especial de jejum e de oração que celebramos na passada sexta-feira, a fim de pedir o dom da reconciliação e da paz. Foi um momento forte do Advento, uma ocasião para aprofundar as causas da guerra e as razões da paz. Perante as tensões e as violências que, infelizmente, atingem também nestes dias várias partes da terra, inclusive a Terra Santa, testemunha singular do mistério do Nascimento de Jesus, é necessário que nós cristãos façamos ressoar ainda mais forte a mensagem de paz que provém da gruta de Belém.

Devemos converter-nos à paz; devemos converter-nos a Cristo, nossa paz, certos de que o seu amor sereno no presépio vence qualquer obscura ameaça e projecto de violência. É preciso continuar a pedir com confiança ao Menino, que nasceu para nós da Virgem Maria, que a energia prodigiosa da sua paz afugente o ódio e a vingança que se escondem no ânimo dos homens. Devemos pedir a Deus que o mal seja derrotado pelo bem e pelo amor.

4. Como  nos  sugere  a  Liturgia  do Advento,  imploremos  ao  Senhor  o dom  de  "nos  prepararmos  com  alegria  para  o  mistério  do  seu  Natal", para que o nascimento de Jesus nos encontre "vigilantes na oração, exultantes no louvor" (Prefácio do Advento, II). Só desta maneira, o Natal será festa de alegria e encontro com o Salvador que nos dá a paz.

Não são precisamente estes os votos que desejaremos uns aos outros nas próximas festas do Natal? Para esta finalidade, que a nossa oração nesta semana seja mais intensa e coral. "Christus est pax nostra Cristo é a nossa paz". A sua paz renove todos os âmbitos da nossa vida quotidiana. Encha os corações, para que se abram à ação da sua graça transformadora; penetre nas famílias, para que diante do presépio ou reunidas à volta da árvore de Natal, consolidem a sua fiel comunhão; reine nas cidades, nas nações e nas comunidades internacionais e se difunda em todas as partes do mundo.

Como os pastores na noite de Belém, apressemos os passos rumo a Belém. Contemplaremos no silêncio da Noite santa o "Menino envolto em panos e deitado numa manjedoira", juntamente com José e Maria (Lc 2, 12.16). Ela, que recebeu o Verbo de Deus no seu seio virginal e o estreitou nos seus braços maternos, nos ajude a viver com um empenho mais intenso esta última etapa do itinerário litúrgico do Advento.

Com estes sentimentos, formulo com afecto os meus votos a todos vós aqui presentes, às vossas famílias e a todos os vossos queridos.

Bom Natal a todos!

-- Papa João Paulo II, na audiência de 19 de Dezembro de 2001

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