8 de mar de 2013

Hino de vitória pela travessia do Mar Vermelho

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Este hino de vitória (cf. Êx 15, 1-18), proposto para as Laudes do sábado da primeira semana, conduz-nos a um momento-chave da história da salvação:  ao acontecimento do Êxodo, quando Israel foi salvo por Deus numa situação humanamente desesperada. Os fatos são conhecidos: depois de uma longa escravidão no Egito, já a caminho para a terra prometida, os Hebreus tinham sido alcançados pelo exército do faraó, e nada os subtrairia à destruíção, se o Senhor não tivesse intervindo com a sua mão poderosa. O hino tarda a descrever a arrogância dos desígnios do inimigo armado:  "Corramos, alcancemo-los! Repartamos os despojos!..." (Êx 15, 9).

Mas que poder tem o maior dos exércitos, diante da omnipotência divina? Deus ordena que o mar abra um carreiro para deixar passar o povo atacado e que o feche quando passam os agressores:  "Mandaste o teu sopro. O oceano engoliu-os:  afundaram-se como o chumbo nas águas majestosas" (Ibid. 15, 10).
São imagens fortes, que querem mostrar a medida da grandeza de Deus, enquanto exprimem a admiração de um povo  que  quase  não  acredita  no  que vê, e se abandona em uníssono num cântico comovido:  "O Senhor é a minha força e a minha glória, foi Ele que me salvou. Ele é o meu Deus, glorificá-Lo-ei; é o Deus de meu pai, louvá-Lo-ei" (Ibid., 15, 2).

O cântico não fala apenas da libertação obtida; indica também a sua finalidade positiva, ou seja, a entrada na casa de Deus para viver em comunhão com Ele:  "Tu guias, pela Tua misericórdia, este povo que libertaste; e com o Teu poder o diriges para a Tua santa morada" (Ibid., 15, 13).

Compreendido desta forma, este acontecimento não esteve só na base da aliança entre Deus e o seu povo, mas tornou-se o "símbolo" de toda a história da salvação. Em muitas outras ocasiões Israel conhecerá situações análogas, e o Êxodo atualizar-se-á pontualmente. De maneira especial, aquele acontecimentio prefigura a grande libertação que Cristo realizará com a sua morte e ressurreição.

Por isso o nosso hino é cantado de modo especial na liturgia da Vigília pascal, para ilustrar com a intensidade das suas imagens o que se realizou em Cristo. N'Ele fomos salvos não só de um opressor humano, mas daquela escravidão de satanás e do pecado, que desde as origens pesa sobre o destino da humanidade. Com Ele a humanidade põe-se de novo a caminho, pelas estradas que conduzem à casa do Pai.

Esta libertação, já realizada no mistério e presente no Batismo como uma semente de vida destinada a crescer, alcançará a sua plenitude no fim dos tempos, quando Cristo voltar glorioso e entregar "o Reino a Deus Pai" (1 Cor. 15, 24). A Liturgia das Horas convida-nos a olhar precisamente para este horizonte final, escatológico, introduzindo o nosso Cântico com uma citação do Apocalipse:  "os que venceram a Besta...cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus" (Ap15, 2.3).

No final dos tempos, realizar-se-á plenamente para todos os que foram salvos aquilo que o acontecimento do Êxodo prefigurava e a Páscoa de Cristo realizou de maneira definitiva, mas aberto ao futuro. De fato, a nossa salvação é real e profunda, mas situa-se entre o "já" e o "ainda não" da condição terrena, como nos recorda o apóstolo Paulo:  "Porque na esperança é que fomos salvos" (Rm 8, 24).

"Cantemos ao Senhor, que é solenemente grande" (Êx 15, 1). Pondo nos nossos lábios estas palavras do antigo hino, a Liturgia das Laudes convida-nos a orientar o nosso dia para o horizonte da história da salvação. Esta é a forma cristã de compreender o passar do tempo. Nos dias que se acumulam não há uma fatalidade que nos oprime, mas um desígnio que se desvenda lentamente, e que os nossos olhos devem aprender a ler como em filigrana.

Os Padres da Igreja eram particularmente sensíveis a esta perspectiva histórico-salvífica, e gostavam de ler os factos relevantes do Antigo Testamento do dilúvio do tempo de Noé à chamada de Abraão, da libertação do Êxodo ao regresso dos Hebreus depois do exílio em Babilónia como "prefigurações" de acontecimentos futuros, reconhecendo naqueles fatos um valor "arquétipo":  neles eram prenunciadas as características fundamentais que se iriam repetir, de certa forma, durante toda a história humana.

Contudo, já os profetas tinham lido os acontecimentos da história da salvação, mostrando o seu sentido sempre atual e indicando a sua realização plena no futuro. Desta forma, ao meditar sobre o mistério da aliança estabelecida por Deus com Israel, eles falam de uma "nova aliança" (Jr 31, 31; cf. êx 36, 26-27), na qual a lei de Deus teria sido escrita no próprio coração do homem. Não é difícil ver nesta profecia a nova aliança estabelecida no sangue de Cristo e realizada através do dom do Espírito. Ao recitar este hino de vitória do antigo Êxodo à luz do Êxodo pascal, os fiéis podem viver a alegria de se sentirem Igreja peregrina no tempo, rumo à Jerusalém celeste.

Por conseguinte, trata-se de contemplar com admiração sempre renovada tudo o que Deus dispôs para o seu Povo:  "Tu o introduziste e o estabeleceste no monte da Tua herança, no lugar que reservaste para Tua morada, Senhor! Santuário preparado pelas Tuas mãos, ó meu Deus!"(Êx 15, 17). O hino de vitória não exprime o triunfo do homem, mas o triunfo de Deus. Não é um cântico de guerra, é um cântico de amor.

Deixando que os nossos dias sejam invadidos por este estremecimento de louvor dos antigos Hebreus, nós caminhamos pelas estradas do mundo, cheias de insídias, de perigos e de sofrimentos, com a certeza de estarmos envolvidos pelo olhar misericordioso de Deus:  nada pode resistir ao poder do seu amor.

-- Papa João Paulo II, na audiencia de 21 de Novembro de 2001

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