26 de set de 2011

A preciosa morte dos mártires cujo preço foi a morte de Cristo

A Decapitação de São Cosme e São Damião, pintura de
Fra Angelico. 
* Segunda a tradição, no ano 300, os irmãos São Cosme e São Damião foram torturados e queimados, mas como milagrosamente sobreviveram sem marcas, o imperador Diocleciano ordenou que fossem decapitados. Eram médicos e exerciam sua profissão sem cobrar. Deles se relatam muitos milagres de cura. O mais famoso conta que um doente tinha a perna totalmente gangrenada. Os santos aproveitaram-se do fato de um escravo ter falecido a pouco e transplantaram a perna ainda saudável do escravo, substituindo a perna doente. 

No Brasil, há muita confusão derivada do sincretismo com religiões afro-brasileiras, a começar pelo dia da sua celebração, 26 de Setembro para a religião católica, 27 de Setembro para outros cultos.  Também graças a estas confusões, estabeleceu-se o costume de oferecer balas e outros doces para os santos, como é hábito dos cultos afro, mas não dos católicos. O texto que segue é indicado na Liturgia das Horas para a celebração dos mártires Cosme e Damião.

Pelos feitos tão gloriosos dos mártires, que fazem a Igreja florescer por toda a parte, provamos com nossos próprios olhos como é verdadeiro o que cantamos: É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus santos (Sl 115, 15). Portanto é preciosa não só aos nossos olhos, mas aos olhos daquele cujo nome se sofreu. Contudo o preço destas mortes é a morte de um só. Quantas mortes comprou um só com a sua morte? Se ele não morresse, o grão de trigo não se multiplicaria. Ouvistes suas palavras, estando próxima a paixãi, quer dizer, quando se aproximava nossa redenção: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, ficará sozinho; morrendo, porém, produzirá muito fruto ( Jo12,24).

Houve na cruz um grande comércio: abriu-se ali a bolsa para pagar nosso custo; quando seu lado foi aberto pela lança do que feria, dali correu o preço do mundo inteiro. Foram comprados fiéis e mártires; mas a fé dos mártires suportou a prova; o sangue é testemunha. Retribuíram o que tinha sido pago por eles e realizaram as palavras de São João. Assim como Cristo entregou sua vida por nós, também nós devemos entregar nossas vidas pelos irmãos (1Jo 3,16). E em outro lugar se disse:  Sentaste à grande mesa, observa com cuidado o que te oferecem porque deves preparar o mesmo (Pr 23,1-2). A grande mesa é aquela em que as iguarias são o próprio Senhor da mesa. Ninguém alimenta os convivas com a sua pessoa, mas assim procede o Cristo Senhor: ele é quem convida, ele é o pão e a bebida. Portanto, os mártires reconheceram o que comeram e o que beberam, para retribuírem o mesmo.

Mas como retribuir, a não ser que lhes desse com que retribuir aquele que primeiro pagou? Que retribuirei ao Senhor por tudo quanto me deu? Tomarei o cálice da salvação (Sl 115,12-13). Que cálice é este? O cálice da paixão, amargo e salutar; cálice que, se dele não bebesse antes o médico, o doente temeria tocá-lo.

É ele este cálice. Nós o reconhecemos nos lábios de Cristo que dizia: Pai, se possível for afaste-se de mim este cálice (Mt 26,39). Deste mesmo cálice disseram os mártires: Tomarei o cálice da salvação e invocareio nome do Senhor (Sl 115,13).

Não temos então medo de fraquejar? Por quê? Porque invocaremos o nome do Senhor. Como venceriam os mártires, se neles não vencesse aquele que disse: Alegrai-vos porque eu venci o mundo? (Jo 16,33). O soberano dos céus governava-lhes a mente e a língua e, através deles, derrotava o diabo na terra e coroava os mártires no céu. Felizes os que assim beberam deste cálice: terminaram as dores, receberam as honras!

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

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