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31 de out. de 2020

Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo

 Amados irmãos e irmãs

A nossa celebração eucarística inaugurou-se hoje com a exortação "Alegremo-nos todos no Senhor". A liturgia convida-nos a compartilhar o júbilo celeste dos santos, a saborear a sua alegria. Os santos não são uma exígua casta de eleitos, mas uma multidão inumerável, para a qual a liturgia de hoje nos exorta a levantar o olhar. Em tal multidão não estão somente os santos oficialmente reconhecidos, mas os batizados de todas as épocas e nações, que procuraram cumprir com amor e fidelidade a vontade divina. De uma grande parte deles não conhecemos os rostos e nem sequer os nomes, mas com os olhos da fé vemo-los resplandecer, como astros repletos de glória, no firmamento de Deus.

No dia de hoje, a Igreja festeja a sua dignidade de "mãe dos santos, imagem da cidade divina" (A. Manzoni), e manifesta a sua beleza de esposa imaculada de Cristo, nascente e modelo de toda a santidade. Sem dúvida, não lhe faltam filhos obstinados e até rebeldes, mas é nos santos que ela reconhece os seus traços característicos, e precisamente neles saboreia a sua glória mais profunda.

Na primeira Leitura, o autor do livro do Apocalipse descreve-os como "uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas" (Ap 7, 9). Este povo compreende os santos do Antigo Testamento, a partir do justo Abel e do fiel Patriarca Abraão, os do Novo Testamento, os numerosos mártires do início do cristianismo e também os beatos e os santos dos séculos seguintes, até às testemunhas de Cristo desta nossa época. Todos eles são irmanados pela vontade de encarnar o Evangelho na sua existência, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus, que é o Espírito Santo.

Mas "para que servem o nosso louvor aos santos, o nosso tributo de glória, esta nossa solenidade?". Com esta interrogação tem início uma famosa homilia de São Bernardo para o dia de Todos os Santos. É uma pergunta que se poderia fazer também hoje. E atual é inclusive a resposta que o Salmo nos oferece: "Os nossos santos diz não têm necessidade das nossas honras, e nada lhes advém do nosso culto. Por minha vez, devo confessar que, quando penso nos santos, sinto-me arder de grandes desejos" (Disc. 2; Opera Omnia Cisterc. 5, 364ss.). Eis, portanto, o significado da solenidade moderna: contemplando o exemplo luminoso dos santos, despertar em nós o grande desejo de ser como os santos: felizes por viver próximos de Deus, na sua luz, na grande família dos amigos de Deus. Ser santo significa: viver na intimidade com Deus, viver na sua família. Esta é a vocação de todos nós, reiterada com vigor pelo Concílio Vaticano II, e hoje proposta de novo solenemente à nossa atenção.

Mas como é que podemos tornar-nos santos, amigos de Deus? A esta interrogação pode-se responder antes de tudo de forma negativa: para ser santo não é necessário realizar ações nem obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais. Depois, vem a resposta positiva: é preciso sobretudo ouvir Jesus e depois segui-lo sem desanimar diante das dificuldades. "Se alguém me serve Ele admoesta-nos que me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo" (Jo 12, 26). Quem nele confia e o ama com sinceridade, como o grão de trigo sepultado na terra, aceita morrer para si mesmo. Com efeito, Ele sabe que quem procura conservar a sua vida para si mesmo, perdê-la-á, e quem se entrega, se perde a si mesmo, precisamente assim encontra a própria vida (cf. Jo 12, 24-25). A experiência da Igreja demonstra que cada forma de santidade, embora siga diferentes percursos, passa sempre pelo caminho da cruz, pelo caminho da renúncia a si mesmo. As biografias dos santos descrevem homens e mulheres que, dóceis aos desígnios divinos, enfrentaram por vezes provações e sofrimentos indescritíveis, perseguições e o martírio. Perseveraram no seu compromisso, "vêm da grande tribulação lê-se no Apocalipse lavaram as suas túnicas e branquearam-nas no sangue do Cordeiro" (Ap 7, 14). Os seus nomes estão inscritos no livro da Vida (cf. Ap 20, 12); a sua morada eterna é o Paraíso. O exemplo dos santos constitui para nós um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria daqueles que confiam em Deus, porque a única verdadeira causa de tristeza e de infelicidade para o homem é o facto de viver longe de Deus.

A santidade exige um esforço constante, mas é possível para todos porque, mais do que uma obra do homem, é sobretudo um dom de Deus, três vezes Santo (cf. Is 6, 3). Na segunda Leitura, o Apóstolo João observa: "Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!" (1 Jo 3, 1). Portanto, é Deus que nos amou primeiro e, em Jesus, nos tornou seus filhos adoptivos. Na nossa vida tudo é dom do seu amor: como permanecer indiferente diante de um mistério tão grande? Como deixar de responder ao amor do Pai celestial, com uma vida de filhos reconhecidos? Em Cristo, entregou-se inteiramente a nós e chama-nos a um profundo relacionamento pessoal com Ele. Portanto, quanto mais imitarmos Jesus e permanecermos unidos a Ele, tanto mais entraremos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito, e isto impele-nos, por nossa vez, a amar os irmãos. O amar implica sempre um acto de renúncia a si mesmo, o "perder-se a si próprio", e é precisamente assim que nos torna felizes.

Assim chegamos ao Evangelho desta festa, ao anúncio das Bem-Aventuranças, que há pouco ouvimos ressoar nesta Basílica. Jesus diz: Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os aflitos, os mansos, quem tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, bem-aventurados os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5, 3-10). Na realidade, o Bem-Aventurado por excelência é somente Ele, Jesus.

Com efeito, Ele é o verdadeiro pobre de espírito, o aflito, o manso, aquele que tem fome e sede de justiça, o misericordioso, o puro de coração, o pacificador; Ele sofre perseguição por causa da justiça. As Bem-Aventuranças revelam-nos a fisionomia espiritual de Jesus e assim exprimem o seu mistério, o mistério da Morte e da Ressurreição, da Paixão e da alegria da Ressurreição. Este mistério, que é mistério da verdadeira bem-aventurança, convida-nos ao seguimento de Jesus e, deste modo, ao caminho que conduz a ela. Na medida em que aceitamos a sua proposta e nos colocamos no seu seguimento cada qual nas suas próprias circunstâncias também nós podemos participar das Bem-Aventuranças. Juntamente com Ele, o impossível torna-se possível e até um camelo pode passar pelo fundo de uma agulha (cf. Mc 10, 25); com a sua ajuda, somente com a sua ajuda podemos tornar-nos perfeitos como é perfeito o Pai celeste (cf. Mt 5, 48).

Estimados irmãos e irmãs, agora entramos no coração da Celebração eucarística, estímulo e alimento de santidade. Daqui a pouco tornar-se-á presente de modo mais excelso Cristo, verdadeira Videira à qual, como ramos, estão unidos os fiéis que vivem na terra e os santos do céu. Por conseguinte, mais íntima será a comunhão da Igreja que peregrina no mundo, com a Igreja triunfante na glória. No Prefácio proclamaremos que os santos são nossos amigos e modelos de vida. Invoquemo-los para que nos ajudem a imitá-los e comprometamo-nos a responder com generosidade, segundo o seu exemplo, à vocação divina. Invoquemos especialmente Maria, Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda Santa, nos faça ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo!

Amém. 

 -- Papa Bento XVI, Homília da Solenidde de Todos os Santos, 1o. de Novembro de 2006

7 de dez. de 2019

São John Newman, de teólogo anglicano a santo católico

John Newman nasceu em 21 de Fevereiro de 1801 em Londres, era o filho mais velho de uma família anglicana que teve outros dois meninos e três meninas. Moravam no centro de Londres onde o pai era banqueiro, e também possuíam uma casa nos arredores da cidade, para descanso aos fins de semana. 

Aos 15 anos leu alguns livros de escritores calvinistas que defendiam a idéia que o Papa era o anticristo e, em uma carta, escreveu que esta era verdadeira fé que não havia sido distorcida por homens. Muito mais tarde na vida, explicaria que a ênfase protestante na justificação pela fé (e não por obras) é a porta de entrada para um individualismo religioso que ignora o papel da Igreja na transmissão da fé e atualização dos seus ensinamentos, resultando um inevitável subjetivismo e relativismo, onde cada um determina o que lhe é adequado.

Vida na Igreja Anglicana

Ele estudou no Trinity College em Oxford, onde foi um estudante comum, mas o suficiente para se tornar professor no Oriel College, também em Oxford. Em 13 de Junho de 1824 recebeu o diaconato na Igreja Anglicana e, em 29 de Maio de 1825, padre. Mantendo a posição de professor, trabalhava na paróquia de São Clemente, além de começar a escrever artigos teológicos. Em 1928 foi apontado vigário da igreja da Universidade de Santa Maria e professor de emérito de hebraico. Começou a defender a idéia que a Igreja deveria ser independente do Estado, tendo prerrogativas e poderes de uma natureza diferente". Como isto contraria a posição da Rainha como chefe da Igreja Anglicana, resultou em sua saída da universidade ao final de 1832.
Retrato de John Newmann, por
William Charles Ross

Aproveitando a ocasião, viajou pelo Mediterrâneo, passando por Roma. Segundo ele, uma cidade fantástica mas referiu-se a Igreja Católica como politeísta e idólatra (adoradora de santos). Em Abril de 1833 estava na Sicília quando adoeceu gravemente e teve que ficar ali por três meses até recuperar-se. 

Ao retornar para Inglaterra, proferiu uma homília em que defendia que o governo de uma nação cristã deveria deixar-se guiar pelos princípios da fé e, se caso tome decisões contrárias a Deus, acaba por se tornar uma nação de apóstatas, sobre a qual vai recair a correção de Deus.

Em 1839, enquanto estudava sobre a natureza de Cristo[1], leu Santo Agostinho que firmou não haver posição intermediária, ou a pessoa está em comunhão com a Igreja ou não. Dali em diante ele começou a questionar a teologia da Igreja Anglicana. Em 1841 publicou um texto em que demonstrou que o documento fundamental na criação da Igreja Anglicana, chamado 39 Artigos da Fé, era baseado em erros populares, não em posições teológicas da Igreja Católica e seus artigos da fé.

John Newman decidiu sair de Oxford, parar de publicar em revistas da Igreja Anglicana e foi morar junto com outros homens em uma casa em Littlemore levando uma vida semi-monástica. Em Fevereiro de 1843 publicou um artigo se retratando de todas as críticas que havia feito à Igreja Católica e em 25 de Setembro proferiu o seu último sermão em uma Igreja Anglicana.

Vida na Igreja Católica

Em 9 de Outubro de 1845 foi recebido na Igreja Católica pelo padre Dominic Barbieri. A vida de John Newman mudou radicalmente pois não apenas perdera todos seus postos na Universidade, como também foi considerado como um traidor pela família e amigos. Em Fevereiro de 1846 foi ordenado padre, em Roma, e nomeado Doutor em Teologia pelo Papa Pio IX. Dali retornou para a Inglaterra, onde trabalhou na Faculdade de Teologia do Maryvale Institute. 

Em 1850, o Papa Pio IX publicou o documento Universalis Ecclesiae que reorganizou a Igreja Católica na Inglaterra, restabelecendo a hierarquia e o controle papal. O primeiro ministro denunciou o documento como uma manobra do Papa para controlar a Inglaterra e sobrepor ao governo de sua majestade. Isto resultou em violência contra padres e vandalismo contra igrejas. No ano seguinte, John Newman escreveu uma série de artigos em tom mais popular em que não apenas defendeu a Igreja como explicou as causas no anti-catolicismo no país. Por óbvio, John Newman foi atacado e até mesmo processado por partes do seu livro. 
Cardeal Newmann, em Maio de 1890,
já com 90 anos e três meses antes de sua morte.

Em 1854 transferiu-se para Dublin como Reitor da recém criada Universidade Católica da Irlanda, onde permaneceu por quatro anos. Seu objetivo foi criar uma universidade onde o livre pensamento científico fosse central mas os ensinamentos cristãos permenecessem no centro do currículo influenciando a juventude. Esta posição intermediária não foi bem recebida por todos, novamente causando alguns problemas e resultando em inimigos., 

Em 1864 publicou o livro Apologia Pro Vita Sua (Uma Defesa da Própria Vida [2]), uma espécie de autobiografia espiritual onde explica suas idéias teológicas e como elas evoluíram aos longos dos anos, incluindo a sua conversão ao catolicismo e aceitação dos dogmas católicos. Entre outros, o Papa Bento XVI diz ter sido seriamente influenciado por este livro. 

Após 32 anos de sua partida, John Newman foi eleito professor honorário em Oxford, casualmente no mesmo dia em que o Papa Pio IX morreu. Por recomendação de vários bispos, o sucessor Papa Leão XIII nomeou Newman como Cardeal, o que ocorreu no consistório de 12 de Maio de 1879. Por seu pedido, John Newman não foi ordenado bispo e teve permissão para continuar morando na Inglaterra. 

Sua saúde começou a falhar em 1886, sua última missa pública foi no Dia de Natal em 1889. Morreu de pneumonia em 11 de Agosto de 1890 e foi enterrado em Birmingham. Desde sua morte, e principalmente quando começou o processo de canonização, John Newmann foi atacado por vários motivos, inclusive espalhando boatos mentirosos quanto ao celibato e homossexualidade. 

O Papa João Paulo II proclamou-o Venerável em 1991 e o Papa Bento XVI declarou-o Bento após a cura milagrosa de um diácono americano que havia pedido sua intercessão. Outro milagre, a cura de uma mulher grávida de Chicago a quem os médicos deram a gravidez como perdida [3], conduziu a sua canonização em 13 de Outubro de 2019.

-- autoria própria

[1] Trata-se da questão do Monofisismo, isto é, pode Cristo ser homem e Deus ao mesmo tempo? Segundo a Igreja Católica e também a Anglicana, Cristo combinou as duas naturezas, mas Santo Agostinho teve que combater seitas heréticas que defendiam que Cristo jamais tornou-se realmente homem pois a natureza divina sempre foi superior, mesmo enquanto estava na Terra. 

[2] Aparentemente não há uma edição em português, o que é lastimável. Foi publicado em espanhol, italiano e inglês.  

[3] Neste vídeo, Melissa Villalobos conta que estava grávida, mas sangrava muito já por vários dias. Os médicos deram a gravidez como perdida e avisaram que a própria vida dela estava em risco. Pela intercessão de São John Newmann, o sangramento cessou imediatamente, a menina nasceu saudável e Melissa ainda teve outros filhos. O vídeo está em inglês, mas vale a pena o esforço.

17 de nov. de 2018

Os doutores da Igreja

Doutor da Igreja é um título dado pela Igreja Católica a alguns poucos santos reconhecidos pela sua significativa contribuição para a Teologia ou doutrina através de seus escritos. Duas condições são necessárias para se tornar um doutor da Igreja: grande qualidade doutrinária, refletida em escritos que influenciaram a Igreja; e alto grau de santidade na vida pessoal. 

Os quatro doutores da Igreja Ocidental, quadro de Pier Francesco
Sachi. Começando da esquerda, temos Agostinho,
Gregório Magno, Jerônimo e Ambrósio.  
A forma dos escritos pode variar bastante, como as cartas de Santa Catarina de Sena, as poesias de Santa Hildegarde de Bingen, a auto-biografia de Santa Teresinha do Menino Jesuus e os livros de Santo Agostinho. As funções que exerceram na Igreja também são bastante variadas: Santo Éfrem era diácono, Santa Teresa de Ávila era irmã carmelita, São João da Cruz foi monge, São Roberto Belarmino foi bispo, São Leão Magno chegou a ser Papa. 

Formalmente, um decreto da Congregação para Causas dos Santos deve proclamar o santo como doutor da Igreja, o que implicará em alterações na liturgia, como utilizar Mateus 5, 13-19 ("Tu és o sal da terra") como Evangelho do Dia e Eclesiástico 15, 5 ("No meio da assembléia abriste tua boca e Deus a encheu de sabedoria") na Oração da Manhã. Mártires não são proclamados doutores da Igreja, pois seu testemunho é de outra ordem, embora alguns mártires também tenham escritos que foram fundamentais na Igreja, como Santo Inácio de Antioquia, Santo Irineu de Lion e São Cipriano de Cártigo. 

Na Igreja Ocidental, quatro santos eram tradicionalmente reconhecidos como doutores, o que foi formalizado em 1298 alterando a liturgia para explicitamente mencionar o título. Eles eram São Gregório Magno, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Jerônimo. Distinção semelhante, mas não título, era dada pela Igreja oriental para três outros: São João Crisóstomo, São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno, que foram reconhecidos como doutores pelo Papa Pio V em 1568.

A lista atual de doutores da Igreja é composta por 36 nomes. ao lado de cada nome está data de nascimento e morte, principal função na Igreja e o ano da proclamação do título de doutor:

  1. Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão, proclamado doutor em 1298.
  2. Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, 1298.
  3. São Jerônimo (347-420), monge, 1298.
  4. São Gregório Magno (540-604), papa, 1298.
  5. São Tomás de Aquino (1225-1274), padre e fundador dos jesuítas, 1567.
  6. Santo Atanásio (298-373), bispo de Alexandria, 1568.
  7. São Gregório Nazianzeno (329-389), arcebispo de Coonstantinopla, 1568.
  8. São João Crisóstomo (347-407), arcebispo de Constantinopla, 1568.
  9. São Basílio Magno (330-379), bispo da Cesaréia, 1568.
  10. São Boaventura (1221-1274), bispo de Albano, 1588.
  11. Santo Anselmo (1033-1109), arcebispo de Canterbury, 1720.
  12. Santo Inácio de Sevilha (560-636), bispo de Sevilha, 1722.
  13. São Pedro Crisólogo (406-450), bispo de Ravena, 1729.
  14. São Leão Magno (400-461), papa, 1754.
  15. São Pedro Damião (1007-1072), cardeal de Óstia, 1828.
  16. São Bernardo (1090-1153), monge cisterciense, 1830.
  17. Santo Hilário de Poitiers (300-367), bispo de Poitiers, 1851
  18. Santo Alfonso Ligório (1696-1787), bispo de Santa Ágata e fundador da Ordem dos Redendoristas, 1871
  19. São Francisco de Sales (1567-1622), bispo de Genova, 1877.
  20. São Cirilo de Alexandria (376-444), bispo de Alexandria, 1883.
  21. São Cirilo de Jerusalem (315-386), arcebispo de Jerusalém, 1883.
  22. São João Damasceno (676-749), monge, 1890.
  23. São Beda Venerável (672-735), monge, 1899.
  24. Santo Éfrem (306-373), diácono, 1920.
  25. São Pedro Canísio (1521-1597), padre, 1925.
  26. São João da Cruz (1542-1591), monge, 1926.
  27. São Roberto Belarmino (1542-1621), Arcebispo de Cápua, 1931.
  28. São Alberto Magno (1193-1280), bispo de Regensburg, 1931.
  29. Santo Antônio de Pádua (1195-1231), padre, 1946.
  30. São Lourenço de Brindisi (1559-1619), padre, 1959.
  31. Santa Teresa de Ávila (1515-1582), monja carmelita, 1970.
  32. Santa Catarina de Sena (1347-1380), irmã domenicana, 1970.
  33. Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), monja carmelita, 1997.
  34. São João de Ávila (1500-1569), padre, 2012.
  35. Santa Hildegarde de Bingen (1098-1179), abadessa beneditina, 2012.
  36. São Gregório de Narek (951-1003), monge, 2015.

Os santos que viveram antes do cisma em 1054 também são reconhecidos pelas Igrejas Ortodoxas orientais. A Igreja Anglicana utiliza o termo "Professores da fé", mas a lista é bastante idêntica à Católica. Há alguns, como o Beato Ramon Llul que é popularmente conhecido como "Doutor Iluminado", mas este é apenas um título popular; até mesmo o Papa Bento XVI chamou, de maneira informal, São Máximo Confessor de "grande doutor da Igreja Grega".

Para nós, é certo que ler os textos dos doutores da Igreja é estar seguro de que os ensinamentos são inspirados pelo Espírito Santo e de grande proveito espiritual. Com todo respeito aos padres atuais, esta é uma lista de apenas 36 santos em 2000 anos de história, portanto são textos muito especiais que merecem a nossa leitura atenta. 

-- autoria própria

10 de jun. de 2018

Mórmons são cristãos? Não, mas é complicado.

Após Lutero e o Rei Henrique VIII surgiram diversas igreja saídas da Católica, com menores ou maiores diferenças doutrinárias e teológicas em relação à Católica. Este processo continuou, com mais e mais novas divisões, até a situação atual com milhares de igrejas que podem ser chamadas cristãs, acreditam em Deus Pai, seu filho Jesus Cristo e o Espírito Santo, e utilizam traduções da Bíblia que encontram suas raízes no trabalho de São Jerônimo. 

Uma diferença prática importante: a ISUD não batiza
recém-nascidos, apenas pessoas com um mínimo de
compreensão dos seus ensinamentos. marcado pela
idade de oito anos e sem deficiências mentais.
A Igreja Católica aceita plenamente o Batismo de outras igrejas cristãs, isto é, caso uma pessoa que tenha sido batizada, digamos, na Igreja Luterana converta-se a Igreja Católica, não será necessário batizá-la novamente por que o Batismo é feito com a mesma forma e intenção. Diferenças de natureza doutrinária não são suficientes para invalidar o Batismo, e isto é uma posição muito anterior à Lutero, com raízes numa decisão do Papa Estevão I no ano de 256, quando já ocorriam as primeiras separações da Católica.  

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ISUD), popularmente como  mórmons, surgiu a partir de um movimento liderado por Joseph Smith em torno de 1830. No início, o Batismo ministrado pelos mórmons foi aceito pela Igreja Católica, mas conforme seus ensinamentos foram alterados pelos seus líderes e melhor compreendidos por todos, tornou-se óbvio que esta decisão deveria ser revista. Hoje a Igreja Católica não aceita o Batismo ministrado pelos mórmons, ou seja, basicamente afirma que são tão diferentes do Cristianismo que já não podem ser chamados cristãos.

E por que isto é complicado? O problema é que a ISUD também batiza em nome do Pai, Filho e o Espírito Santo utilizando a água como sinal do batismo, ou seja, na aparência externa, seria um Batismo cristão, mas as semelhanças terminam aí, na exterioridade.

A invocação não é realmente da Santíssima Trindade por que o Pai, Filho e Espírito Santo são considerados não como as três pessoas de Deus, mas três deuses separados que existiam da maneira separada e, livremente, decidiram formar uma divindade. Ou seja, até mesmo a idéia de divindade só começaria  a existir a partir do momento em que os três deuses decidiram se unir. E ainda mais, Deus trata-se um ser nativo de outro planeta que se transformou em um ser humano e morreu de uma maneira humana, sendo esea um modo válido de transformar-se em Deus, também acessível a todos outros homens. Deus Pai tem ancestrais e uma esposa, a Mãe Celestial, com quem dividiu a responsabilidade da criação. Jesus Cristo é o primeiro filho desta união, assim como o Espírito Santo, nascidos após a criação do mundo. Para os mórmos há, no mínimo, quatro deuses, sendo que três deles decidiram unir-se para formar a divindade. Ou seja, as diferenças são tão profundas que não podem nem mesmo ser consideradas como uma heresia, mas como vindas de uma matriz teológica separada do cristianismo. 

Além disso há outras distinções importantes: para a Igreja Católica, o Batismo cancela não apenas os pecados pessoais, como também o pecado original. Já a ISUD sequer aceita a existência do pecado original e o pecado de Adão e Eva teria sido parte do plano de Deus. Também é possível batizar os antepassados já mortos e que isto conduz a salvação de suas almas. Na prática, isto leva os mórmons a cuidadosamente investigarem a história familiar em busca de pessoas a serem salvas. 

Joseph Smith, que iniciou o ISUD, acreditava na Bíblia mas afirmava que ela havia sido degenerada pela Igreja Católica que teria omitido livros e introduzido erros no texto. A partir daí completou uma revisão da Bíblia em 1833, incluindo o que considerou correções e seus próprios comentários. Também escreveu o Livro dos Mórmons, que explica seus ensinamentos e fundamenta sua teologia, sendo que este tem um status igual ao da Bíblia. 

Em síntese, embora na forma o Batismo da ISUD pareça ser cristão, as diferenças são muito grandes a ponto de não ser aceito pela Igreja Católica. Se algum mórmom se converter ao catolicismo, terá que ser batizado e declarar sua adesão ao Credo Niceno-Constantinopolitano: Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.

-- autoria própria, com base em um documento publicado pela Congregação da Doutrina da Fé escrito por Pe. Luis Ladaria em 1o. de Agosto de 2011. 

9 de jan. de 2018

Perguntas e respostas sobre a Eucaristia


A Sagrada Eucaristia é central na Igreja Católica, que acredita na presença real de Cristo na forma de Corpo e Sangue. Não é um símbolo, não é um alimento para ser compartilhado, é infinitamente muito mais que isso.

Tomando por base perguntas formuladas pelo Padre Robert Barron, resolvi publicar minhas respostas numa sucessão de cinco posts, ao ver tamanha riqueza de ensinamentos. Espero que também vejam o amor de Deus neste sacramento.

Basta clicar no título de cada parte para ler minhas respostas. 

1. Qual o significado da palavra "Eucaristia"?
2. Por quais outros nomes a Eucaristia é também conhecida?
3. O que relembramos na Eucaristia?
4. Por que a Eucaristia é a fonte de toda vida cristã?
5. Quando a Igreja começou a celebrar a Eucaristia?

1. Que graças a Eucaristia confere àqueles que a recebem?
2. O que o Profeta Isaías fala sobre a Celebração da Missa?
3. Como São Mateus foi chamado a ser apóstolo?
4. Como Adão e Eva pecaram contra a Eucaristia?
5. Qual a relação entre a Última Ceia e a Eucaristia?

1. O que é uma aliança no sentido bíblico?
2.  Qual foi a Aliança de Deus com Abraão?
3. Por que sacrifícios do Antigo Testamento foram incompletos?
4. Por que o sacrifício de Cristo é perfeito?
5. Por que o sacrifício de Cristo é definitivo e dispensa todos os outros?
6. Como entender que a Missa é um sacrifício?

1. Como Cristo está presente no mundo e na Igreja?
2.  Como Cristo está presente na Eucaristia?
3. Por que a hóstia e o vinho não são meros sinais? 
4. Como os apóstolos aceitaram esta realidade?
5. Como a Eucaristia beneficia a Igreja?

1. O que é um sacramento?
2. Por que é importante receber os sacramentos?
3. Por que a Eucaristia é o principal sacramento da Igreja?
4. Como Cristo está presente de modo real, em corpo e sangue, na Eucaristia?
5. Como a Eucaristia é um sinal dos tempos futuros?

--autoria própria

11 de dez. de 2017

Perguntas sobre Eucaristia - introdução

1. Qual o significado da palavra "Eucaristia"?

Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), item 1328, chama-se Eucaristia, porque é uma ação de graças a Deus. Provém das palavras gregas "eucharistein" (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24) e "eulogein" (Mt 26, 26; Mc 14, 22) que lembram as bênçãos judaicas que proclamam – sobretudo durante a refeição – as obras de Deus: a criação, a redenção e a santificação.

A Eucaristia  é um sacrifício de louvor em ação de graças pela obra da criação. Neste sacrifício toda a criação, amada por Deus, é apresentada ao Pai, através da morte e ressurreição de Cristo. É um louvor em ação de graças por tudo o que Deus fez de bom, belo e justo, na criação e na humanidade.

A Eucaristia é um sacrifício oferecido por Cristo na cruz, com Cristo presente na hóstia e vinho, que é aceito em memória de Cristo.

* baseado no Catecismo da Igreja Católica (CIC), parágrafos 1328, 1359-61.

2. Por quais outros nomes a Eucaristia é também conhecida?

Utiliza-se vários outros nomes para significar a Eucaristia:

  • Ceia do Senhor, porque se trata da ceia que o Senhor comeu com os discípulos na véspera da sua paixão.
  • Fração do Pão, porque este rito, próprio da refeição dos judeus, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como chefe de família, sobretudo na última ceia. É por este gesto que os discípulos O reconheceram depois da sua ressurreição.
  • Assembleia eucarística, porque a Eucaristia é celebrada em assembleia de fiéis, expressão visível da Igreja.
  • Santo Sacrifício, porque atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador e inclui a oferenda da Igreja; ou ainda santo Sacrifício da Missa, Sacrifício de louvor (Heb 13, 15), Sacrifício espiritual, Sacrifício puro e santo, pois completa e ultrapassa todos os sacrifícios da Antiga Aliança.
  • Santa e divina Liturgia, porque toda a liturgia da Igreja é centrada neste sacramento; no mesmo sentido se lhe chama também celebração dos Santos Mistérios. Fala-se igualmente do Santíssimo Sacramento, porque é o sacramento dos sacramentos. E, com este nome, se designam as espécies eucarísticas guardadas no sacrário.
  • Comunhão, pois é por este sacramento que nos unimos a Cristo, o qual nos torna participantes do seu corpo e do seu sangue, para formarmos um só corpo.
  • Santa Missa, porque a liturgia em que se realiza o mistério da salvação termina com o envio dos fiéis («missio»), para que vão cumprir a vontade de Deus na sua vida quotidiana.
* CIC: 1329-1333

3. O que relembramos na Eucaristia?


A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, a atualização e a oferenda sacramental do seu único sacrifício, na liturgia da Igreja que é o seu corpo. No sentido que lhe dá a Sagrada Escritura, o memorial não é somente a lembrança dos acontecimentos do passado, mas a proclamação das maravilhas que Deus fez pelos homens.

Na celebração litúrgica destes acontecimentos, eles se tomam presentes e atuais. É assim que Israel entende a sua libertação do Egipto: sempre que se celebrar a Páscoa, os acontecimentos do Êxodo tornam-se presentes à memória dos crentes, para que conformem com eles a sua vida.

Quando a Igreja celebra a Eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo, e esta torna-se presente: o sacrifício que Cristo ofereceu na cruz uma vez por todas, continua sempre atual: Todas as vezes que no altar se celebra o sacrifício da cruz, no qual "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado", realiza-se a obra da nossa redenção.

* CIC 1362-1364

4. Por que a Eucaristia é a fonte de toda vida cristã?

A Eucaristia é fonte e ponto central de toda a vida cristã. Tudo mais que acontece na Igreja, outros sacramentos, todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se orientam. Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa.

Nela se encontra o cume, ao mesmo tempo, da ação pela qual Deus, em Cristo, santifica o mundo, e do culto que no Espírito Santo os homens prestam a Cristo e, por Ele, ao Pai. Pela celebração eucarística, unimo-nos desde já à Liturgia do céu e antecipamos a vida eterna. (1 Cor 15, 18 ).

* CIC 1324-1327

5. Quando a Igreja começou a celebrar a Eucaristia?

Desde o princípio a Igreja foi fiel à ordem do Senhor. Da Igreja de Jerusalém está escrito:
Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. [...] Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração (At 2, 42.46).
6. A Igreja sempre celebrou Eucaristia como faz hoje?

 Desde o século II, temos o testemunho de São Justino sobre a forma da celebração eucarística e permaneceram as mesmas até aos nossos dias. Veja o testemunho do santo escrito cerca do ano 155:
No dia que chamam Dia do Sol, realiza-se a reunião num mesmo lugar de todos os que habitam a cidade ou o campo.
Lêem-se as memórias dos Apóstolos e os escritos dos Profetas, tanto quanto o tempo o permite.
Quando o leitor acabou, aquele que preside toma a palavra para incitar e exortar à imitação dessas belas coisas.
Em seguida, levantamo-nos todos juntamente e fazemos orações por nós mesmos [...] e por todos os outros, [...] onde quer que estejam, para que sejamos encontrados justos por nossa vida e ações, e fiéis aos mandamentos, e assim obtenhamos a salvação eterna.
Terminadas as orações, damo-nos um ósculo uns aos outros.
Depois, apresenta-se àquele que preside aos irmãos pão e uma taça de água e vinho misturados.
Ele toma-os e faz subir louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e dá graças  longamente, por termos sido julgados dignos destes dons.
Quando ele termina as orações e ações de graças, todo o povo presente aclama:Ámen.[...] Depois de aquele que preside ter feito a ação de graças e de o povo ter respondido, aqueles a que entre nós chamamos diáconos distribuem a todos os que estão presentes pão, vinho e água "eucaristizados" e também os levam aos ausentes.
 Ou seja, a ordem seguida na celebração já era próxima da atual: leituras bíblicas, homília, preces da comunidade, consagração do pão e vinho, e distribuição da Eucaristia.

* CIC 1342, 1345.

* autoria própria, totalmente baseado no Catecismo da Igreja Católica (CIC).

* outras quatro partes estão para ser publicadas.

18 de nov. de 2017

Milagres e o processo de canonização

Os primeiros santos da Igreja foram mártires que permaneceram firmes à fé em Jesus Cristo mesmo sob a ameaça de torturas e mortes quando suas comunidades começaram a relembrar anualmente o martírio de seus conhecidos. Daí surgiu a necessidade de organizar calendários litúrgicos e escrever a história de cada santo, pois com o passar dos anos, o número de santos aumentava, e aqueles que haviam testemunhado os acontecimentos pessoalmente, faleciam.

O martírio de Santa Felicidade, testemunhado por cristãos
e não cristãos.
Neste contexto, não havia processo legal para definir a canonização dos santos, apenas era óbvio para os seus conhecidos que a pessoa havia sido martirizada por sua fé e, sem dúvida, havia entrado nos céus após fazer um sacrifício similar do próprio Jesus Cristo. Ou seja, o povo sabia que era uma santo por que havia testemunhado de sua santificação.

Mas nem todo cristão que havia tido uma vida justa morria martirizado. Por exemplo, alguns bispos que haviam sido eleitos por sua comunidade pelo seu exemplo de fé, quando faleciam por doenças, velhice ou algum acidente, também eram considerados santos. Logo, as comunidades passaram também a reconhecer a santidade de viúvas e virgens.

Com o passar dos séculos, o aumento no número de cristãos e o fim das perseguições, tornou-se impossível para os bispos conhecer seu rebanho intimamente a ponto de poder afirmar que haviam tido uma vida santificada. Passou então ser necessário algum tipo de investigação por parte das autoridades locais para melhor se informar dos fatos antes de declarar alguém santo. Como não havia ainda um processo formal, o método poderia variar bastante, mas há poucos registros para entender os detalhes de cada caso.

É certo que na Idade Média iniciou-se a considerar milagres realizados pela intercessão do santo como clara comprovação que a pessoa estava no céus pois somente estando nos céus uma alma poderia pedir diretamente a Deus que auxiliasse na cura ou qualqueroutro problema do fiel que pedia a graça. 

O Papa Alexandre III (1159-1181) centralizou o processo de canonização em Roma para resolver abusos que ocorriam na distante Suécia. O caso em consideração era claro, a igreja local começara a venerar um homem que havia sido morto enquanto estava bêbado, dando como verdadeiros certos relatos de milagres que ocorreram próximos ao túmulo do sujeito. Em uma carta ao Rei da Suécia, o Papa comunicou que novos santos só deveriam ser venerados após autorização de Roma.  

Papa Inocente II
Em 1198, Papa Inocente II definiu claramente os critérios para canonização: "duas coisas são necessárias para que uma pessoa seja considerada santa pela Igreja Militante, trabalhos de piedade durante sua vida e milagres após sua morte". Mais tarde esclareceu que "apenas os méritos acumulados em vida sem milagres ou apenas os milagres sem méritos não são evidência suficiente de santidade... pois um anjo do demônio pode se por um anjo de luz para enganar os homens, enquanto certas pessoas são muitos caridosas apenas para serem apreciadas pelos homens."  Note-se que nada foi dito quanto a quantidade de milagres ou sua natureza, mas os bispos locais passaram a coletar as informações e enviar à Roma para que o Papa desse sua aprovação final. 

Com a expansão do Cristianismo para novas áreas como América, Ásia e sul da África, relatos de martírios voltaram a se tornar comuns. O Papa Urbano VIII (1623-1644) constituiu uma comissão de teólogos com o objetivo de discutir se bastava o martírio ou a Igreja deveria continuar exigindo milagres dos novos mártires. O caso em questão era o Arcebispo de Polotsk (atual Bielorússia) Josafá Kuntsevych que fora morto por uma multidão de cristãos ortodoxos. O Papa reconhecia o martírio, mas até o momento não havia relatos de milagres.

Após discussões, o painel concluiu que nos casos claros de martírio público, como ocorria com os primeiros cristãos nos tempos da perseguição romana, milagres não eram necessários. Mas se os acontecimentos não fossem tão claros, os milagres seriam a confirmação da santidade e martírio, afinal havia a possibilidade de alguém, nos minutos finais, se arrepender de estar arriscando sua vida, o que invalidaria o martírio. Desta maneira, os milagres funcionavam como uma espécie de "seguro" de que o martírio tinha sido legítimo. Desta resposta percebe-se que o processo de canonização tinha se tornado bem mais legalístico e complexo, com documentos, testemunhas e decisões em cômites, algo bem diferente da espontaneidade dos primeiros cristãos.

No Código Canônico de 1917, a complexidade legal persistiu. A Lei passou a requerer para a beatificação dois, três ou quatro milagres para beatificação, dependendo da confiabilidade e número de testemunhas diretas ou indiretas, e mais dois milagres para a canonização. Portanto, em alguns casos era possível que até seis milagres fossem necessários, embora já havia uma previsão no canon 2116.2 de que o Papa poderia dispensar a obrigatoriedade dos milagres em casos específicos.

A partir dos anos 70, com o Papa Paulo VI, e depois São João Paulo II, tornou-se habitual beatificar com apenas um milagre e canonizar com mais outro. Também ajudou que era muito mais fácil documentar os casos e, com o avanço da ciência, separar milagres legítimos que ocorreram por intervenção divina, de outros acontecimentos explicáveis cientificamente. No entanto, isto criou a necessidade de utilizar cientistas para analisar os casos, envolvendo leigos, não apenas padres e teólogos na decisão. Embora o número de milagres tenha sido reduzido na prática, mesmo para os mártires, pelo menos dois milagres era o número "mágico".

Funeral de São João Paulo II, o povo reconhecendo que
havia sido santo.
No atual Código Canônico, o canon 1403.1 apenas indica que o processo de canonização deve ser guiado através de orientações claras estabelecidas pelo Papa. Em 1983, São João Paulo II publicou a Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister que estabeleceu o processo em uso nos dias atuais, prevendo, formalmente, uma vida exemplar, um milagre para beatificação e um milagre para canonização. O martírio comprovado dispensa a necessidade de milagres, mas o processo ainda é complicado, involve muitas pessoas e pode ser bem custoso.

O caso do próprio Papa João Paulo II representa uma evolução interessante com o povo em seu funeral já pedindo sua canonização pois sua vida tinha sido tão pública quanto possível graças aos meios de comunicação. Formalmente ainda foram documentados dois milagres, mas num ritmo muito mais rápido que o habitual. Santa Teresa de Cálcuta também seguiu o mesmo processo acelerado. Ainda, se assim desejar, o Papa tem poder para dispensar a exigência de milagres e acelerar o processo.

-- autoria própria


3 de mai. de 2016

Quantos santos há na Igreja Católica?

O dia 11 de Fevereiro de 2013 certamente foi histórico para a Igreja Católica, pois neste dia o Papa Bento XVI renunciou. Mas,  no mesmo dia, o ainda Papa encaminhou três canonizações: Beata Laura Upegui (Colômbia), Beata Maria Guadaluppe Zavala (México), ambas fundadoras de ordens religiosas, e Beato Antonio Primaldo e seus 799 companheiros, todos residentes no sul da Itália martirizados pelos muçulmanos por se negarem a converter-se ao islamismo em 1480. Estas 802 pessoas foram canonizadas em um único dia reunindo-se ao estimado número de 10.000 outros santos já reconhecidos pela Igreja. 

O fato essencial é que o número de santos na Igreja é incerto, não há um número preciso, e é impossível obter um por que por séculos a Igreja não teve um processo formal e centralizado de canonização, como estamos acostumados nos dias atuais. As comunidades dos primeiros séculos veneravam muitíssimos santos, em geral mártires, cuja história ficou perdida ao longo do tempo. 

Apenas nos séculos XVII e XVIII começou-se a prestar atenção nestas histórias e buscar comprovações da sua veracidade. Alguns santos, como Jorge e Valentino tem uma história tão fantástica e sem nenhuma confirmação adicional que parece tratar-se de lendas, não pessoas reais. Ou você realmente pensa que São Jorge enfrentou dragões na lua muito antes de astronautas chegarem lá? Há também as tradições locais, como o francês São Guinefort, protetor dos bebês, por que salvou
miraculosamente um recém nascido picado por uma cobra venenosa. Seu culto persistiu por vários séculos apesar de repetidamente ter sido proibido pela Igreja. Por quê? São Guinefort era um cachorro!

Percebendo as confusões, a Igreja da Idade Média começou a ordenar o processo de canonização, inicialmente de maneira decentralizada, sob a supervisão do bispo local. Por óbvio, não é possível manter um critério único, mas já evitou os excessos mais óbvios. Em 1588, o Papa Sixto V centralizou o processo no Vaticano, encarregando a Congregação de Ritos e Liturgia de avaliar os potenciais candidatos à santidade. 

Em 1969, Paulo VI criou a Congregação para a Causa dos Santos para supervisionar o processo. Também suprimiu o culto de vários santos cuja história está muito misturada com lendas orais, até o ponto em que as vezes é impossível garantir até mesmo sua existância real, como São Jorge. Igrejas já existentes com este nome podem permanecer, mas sua festa foi retirada do Calendário Romano e foi proibida a criação de novas igrejas.

Neste ponto é interessante dizer que o Calendário Romano não é, nem tenta ser, abrangente. Não há um santo para cada dia do ano, são incluídos apenas aqueles cuja mensagem e exemplo são realmente importantes para Igreja universal, inspirando católicos em todo mundo. Ou seja, o número de santos no Calendário Romano é bastante restrito, mas todos são devidamente homenageados em 1o. de Novembro, o Dia de Todos os Santos, canonizados ou não. Outros santos podem ser incluídos no calendário de uma diocese ou paróquia de acordo com as tradições locais, com a devida autorização do bispo.

O processo de canonização foi simplificado pelo Papa João Paulo II em 1983 ao eliminar a figura do Promotor da Fé, mais conhecido por Advogado do Diabo, que procurava encontrar razões contrárias a canonização do santo. Não apenas por este fato, mas também por seu longo reinado, João Paulo II foi um dos papas que canonizou mais santos: 482. Bento XVI canonizou apenas 45 santos e Papa Francisco já canonizou 835, pois um dos seus primeiros atos incluiu São Antonio Primaldo e seus 799 companheiros.

A Wikipedia em português tem uma lista 474 nomes, incluindo alguns casos do "santo e companheiros". Uma lista muito mais completa, ainda que em inglês, é encontrada no site Catholic Online: apenas na letra "A" já estão listados 894 nomes. E, apenas para citar, as Igrejas Ortodoxas reconhecem outros santos, particulares da sua fé, que não estão nos cânones católicos. Mas aí já seria o caso de outro texto.

-- autoria própria

20 de dez. de 2015

Fazer a vontade do Pai

* Pela primeira vez desde o Concílio Vaticano II alterar os ensinamentos sobre o povo judeu cerca de 50 anos, um grupo de rabinos ortodoxos publicou uma declaração apreciando os valores religiosos do Cristianismo e afirmando que há espaço para colaboração entre as duas religiões. O documento foi publicado no site do Centro de Entendimento e Cooperação Judaíca-Cristã, em Israel e assinado por 25 rabinos de Israel, Estados Unidos e Europa. A tradução é minha, com base no texto em inglês da Radio Vaticano; Nostra Aetata é o título de um documento publicado durante o Concílio que aborda e altera os ensinamentos da Igreja sobre o povo judeu e o Judaísmo.

Após cerca de dois milênios de mútua hostilidade e seperação, nós, Rabinos Ortodoxos que lideramos comunidades, instituições e seminários em Israel, Estados Unidos e Europa, reconhecemos a oportunidade histórica diante de nós. Nós procuramos fazer a vontade do Pai aceitando a mão estendida por nossos irmãos cristãos. Judeus e Cristãos podem trabalhar em conjunto como parceiros para endereçar os desafios moral da nossa era.

1. O Holocausto terminou a cerca de 70 anos atrás. Foi o clímax de séculos de desrespeito, opressão e rejeição dos Judeus e a consequente inimizade que desenvolveu-se entre Judeus e Cristãos. Em retrospecto, é claro que a falha de enfrentar a situação e engajar em um diálogo construtivo para o bem da humanidade enfraqueceu a resistência às forças malignas do anti-semitismo que envolveram o mundo em assassinatos e genocídio.

2. Reconhecemos que desde o Concílio Vaticano II os ensinamentos oficiais da Igreja Católica sobre o Judaísmo tem sido alterados de maneira fundamental e irrevocável. A promulgação da Nostra Aetate cinquenta anos atrás iniciou o processo de reconciliação entre as duas comunidades. Nostra Aetate e os subsequentes documentos da Igreja rejeitam inequivocadamente qualquer forma de anti-semitismo, afirmam a Aliança eterna entre D'us e o povo judeu; rejeita o deicídio e destaca a relação única entre Cristãos e Judeus, que são chamados de "nossos irmãos mais velhos" pelo Papa João Paulo II e "nossos pais na fé" pelo Papa Benedito XVI. Nestas bases, católicos e outras autoridades de igrejas cristãs iniciaram um diálogo honesto com judeus que tem aumentado nestas cinco décadas. Apreciamos a afirmação da Igreja de que Israel tem um lugar sagrado na história e na redenção da humanidade. Hoje em dia os judeus tem experimentado um amor sincero e grande respeito por muitos cristãos, expresso em várias iniciativas de diálogo, encontros e conferências em todo mundo.

3. Seguindo Maimonides e Yehudah Halevi, reconhecemos que a Cristandade não é um acidente nem um erro, mas um desejo divino e um presente para as nações. Ao separar entre Judaísmo e Cristianismo, D'us  desejou uma separação entre iguais com significativas diferenças teológicas, não uma separação de inimigos. Rabino Jacob Emden escreveu que "Jesus trouxe duas bençãos para o mundo. Em uma mão, ele fortaleceu a Torá de Jesus magnificamente... e nenhum dos nossos sábios falou tão enfaticamente sobre a imutabilidade da Torá. Na outra mão, ele removeu os ídolos das nações e os obrigou a seguir os sete mandamentos de Noé para que não vivessem como animais soltos nos campos, instilando-os com firmes ensinamentos morais. Cristãos são congregações que trabalham para alcançar os céus, que está destinado àqueles que perseveram na intenção de alcançar os céus e cuja recompensa não é negada. Rabino Samson Raphael Hirsch ensinou que "os cristãos aceitaram a Velho Testamento como um livro dado por revelação Divina. Eles professam a crença no D'us dos Céus e da Terra como proclamado na Bíblia e reconhecem a Providência Divina". Agora que a Igreja Católica reconheceu a Aliança eterna entre D'us e Israel, nós judeus reconhecemos a validade construtiva da Cristandade como nossos parceiros na redenção do mundo, sem temer que seremos explorados para fins missionários. Como afirmado pelo Rabinato Chefe de Israel na Comissão Bilateral com a Santa Sé, através da liderança do Rabino Shear Yashuv Cohen, "Não somos mais inimigos, mas parceiros inequivocos para articular os valores morais essenciais para a sobrevivência e bem-estar da humanidade". Nenhum de nós pode realizar a missão de D'us no mundo sozinho.

4. Judeus e Cristãos tem em comum a missão de aperfeiçoar o mundo sobre o domínio do Todo Poderoso, para que toda humanidade venha chamar Seu nome e as abominações sejam removidas da face da Terra. Nós entendemos que possa haver hesitações de ambas comunidades em afirmar esta verdade e convidamos a todos a superar seus medos para estabelecer uma relação de confiança e respeito. Rabino Hirsch também ensinou que o Talmud coloca os Cristãos "no que diz respeito aos deveres entre homens exatamente no mesmo nível dos Judeus. Eles tem deveres em todos aspectos, não apenas de justiça mas também de amor fraternal".  No passado as relações entre Cristãos e Judeus foram muitas vezes retratadas através de Esaú e Jacó, embora o Rabino Naftali Zvi Berliner já tivesse entendido ao final do século XIX que Judeus e Cristãos são destinados por D'us ao amor fraternal: "No futuro, quando os filhos de Esaú deixarem-se envolver por espírito mais puro, reconhecerão o povo de Israel e suas virtudes, então seremos obrigados a reconhecer Esaú como nosso irmão".

5. Nós Judeus e Cristãos temos mais em comum do que aquilo que nos divide: a ética monoteísta de Abraão; o relacionamento com o Criador dos Céus e da Terra, que ama e cuida de todos nós; as Sagradas Escrituras Judaicas; a crença numa tradição que nos une; os valores de vida, família, compaixão, retidão, justiça, inalienável liberdade, amor universal e o desejo de paz universal. Rabino Moses Rivkis confirma isto ao escrever que "nossas histórias fazem referência ao idólatra que não acredita na criação do mundo, no êxodo, nas miraculosas intervenções divinas e na lei divina. Ao contrário, há pessoas que dispersas no mundo acreditam em todos estes ensinamentos essenciais da religiao".

6. Nossa parceria, de nenhuma maneira, minimiza as diferenças existentes entre as duas comunidades e religiões. Nós acreditamos que D'us emprega muitos mensageiros para revelar sua Verdade, enquanto nós afirmamos as fundamentais obrigações éticas que devem orientar todas as pessoas frente a D'us, como o Judaísmo tem ensinado desde sempre, atravé da aliança de Noé.

7. Ao imitarmos D'us, Judeus e Cristãos devem ser modelos de serviço, amor incondicional e santidade. Somos todos criados à Imagem de D'us, e Judeus e Cristãos devem permanecer dedicados à Aliança tendo um papel conjunto na redenção do mundo.

Assinaturas:

Rabino Jehoshua Ahrens (Alemanha)
Rabino Marc Angel (Estados Unidos)
Rabino Isak Asiel (Rabino Chefe da Sérvia)
Rabino David Bigman (Israel)
Rabino David Bollag (Suiça)
Rabino David Brodman (Israel)
Rabino Natan Lopez Cardozo (Israel)
Rav Yehudah Gilad (Israel)
Rabino Alon Goshen-Gottstein (Israel)
Rabino Irving Greenberg (Estados Unidos)
Rabino Marc Raphael Guedj (Suiça)
Rabino Eugene Korn (Israel)
Rabino Daniel Landes (Israel)
Rabino Steven Langnas (Alemanha)
Rabino Benjamin Lau (Israel)
Rabino Simon Livson (Rabino Chefe da Finlândia)
Rabino Asher Lopatin (Estados Unidos)
Rabino Shlomo Riskin (Israel)
Rabino David Rosen (Israel)
Rabino Naftali Rothenberg (Israel)
Rabino Hanan Schlesinger (Israel)
Rabino Shmuel Sirat (França)
Rabino Daniel Sperber (Israel)
Rabino Jeremiah Wohlberg (Estados Unidos)
Rabino Alan Yuter (Israel)

* tradução própria; documento em inglês aqui.

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